março 22, 2008

A inocência e a violência


A inocência e a violência

Violência. Esta palavra é definida de uma maneira tão singular por dicionários, livros, mas que na vida real toma proporções e significados que chocam; faz-nos refletir sobre o mundo em questão, sobre as pessoas. Sobre nós mesmos.
Violência. Um vocábulo atribuído ao uso da força física, ação de intimidar alguém moralmente ou o seu efeito, ação freqüente destrutiva, exercida com ímpeto e força.
Todos os dias fatos ilustram os significados da palavra. Guerras, fome, humilhação, brigas de torcida, roubos, seqüestros, miséria, tortura, estupro. Ou fazer com que a inocência desapareça quando um rosto é esbofeteado por uma mão, um cérebro sem controle. Um corpo sem consciência ou alma.
Um destes exemplos da crueldade aconteceu em Goiás na última semana. Ganhou grande repercussão na mídia e a população, indignada, comenta sobre o ocorrido. Espanta pela crueldade como a menina era tratada por quem, na verdade, deveria lhe dar abrigo e condições para se ter um futuro melhor.
A garota, de apenas 12 anos, havia sido adotada pela empresária Sílvia Calabrese. Prometida aos pais um local e condições melhores para ser criada e a possibilidade de estudar, a menina encontrou uma realidade totalmente diferente do imaginado. O que era para ser um salto para seu futuro, encontrou apenas dor e sofrimento, traduzidos em sessões de torturas feitas por quem a tirou da casa dos pais.
As cenas, mostradas à exaustão pela televisão, em sua incansável busca de tornar sensacional o fato, revelam como a crueldade do ser humano pode tomar proporções chocantes. A menina, violentada, mostrada como sua língua ficou após receber castigos com alicates e metais cortantes. Desfigurou-se a parte do corpo. Mais chocantes eram as imagens feitas pela própria policia, ao chegar à casa da empresária. Com as mãos amarradas, a vítima era mantida a maior parte das vezes presa na área de serviço da residência. Com a ilusão de que iria ajudar na limpeza da casa, fazia a maior parte dos serviços tarde da noite e também na madrugada. Era obrigada, quando visitada pela mãe, a usar blusas para esconder as marcas de queimadura feitas pelo ferro de passar roupa e dos hematomas, provenientes das agressões da empresária. O mais surpreendente eram as declarações da vítima, que ainda relatava ser obrigada, muitas vezes a comer e beber fezes e urina, respectivamente, dos cães da casa. No relato de terror, a criança alegava que as agressões aconteciam há mais de dois anos e mostrava, em muitos momentos, as marcas que ficaram em seu corpo. Muitas delas, a vítima levará pelo resto da vida, para se lembrar de como podemos ser selvagens, a qualquer momento, por motivos banais. Isso faz com que o homem passe da linha do racional para o que o torna o mais cruel dos animais.
Através de uma denúncia anônima, a polícia goiana encontrou um caso que chocou até mesmo a quem está acostumado a crimes hediondos. Não foi difícil, ver a delegada responsável pelo caso, dar declarações emocionadas à imprensa. A história culminou com a prisão da empresária e também da empregada, que deve responder por encobrir e não denunciar o caso. Além disso, o marido da empresária, que alega não ter conhecimento do que acontecia, também será investigado. Ele relata que o comportamento da mulher era temperamental e que desconfiava que algo acontecia quando viu a menina com um dos dentes quebrado.
Isso nos faz refletir como o comportamento do ser humano, em muitos casos, é inexplicável. Injustificável. Selvagem e sem nexo em uma sociedade que banaliza a própria violência. Há alguma explicação plausível para o comportamento da empresária? Do marido e empregada coniventes com a tortura? Creio que não.
Tais casos todos refletem como o comportamento humano pode tomar proporções que beiram o inexplicável. Tortura, estupro, pedofilia, miséria, falta de perspectiva ou o simples descaso dos pais com relação à educação e o futuro da criança ilustram uma realidade cada vez mais vergonhosa. Não é somente em Goiás, mas em todos os cantos do mundo casos assim transformam e mudam vidas todos os dias.
Mas no meio de tanta dor, decepção e de violência, a mais tênue esperança vem das próprias vítimas. Seja pela força interna ao resistir, como de criar expectativas de um futuro melhor. A criança, torturada, após relatar tanta barbárie contra ela, não deixou de sonhar. E o que ela falou a quem quiser ouvir, mostra uma reflexão nas mais adversidades. “Quero ser feliz de novo, com meus pais. E também ganhar uma bicicleta”, é o que quer a menina, agredida, amarrada, torturada e agora consciente de que as pessoas podem ser mais selvagens do que imaginamos.